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Glória, o Anjo.



O que dignifica a existência de uma pessoa passa sempre pela hombridade de seus gestos. Sua história vai além de sua existência, onde seu tempo parece se instalar numa espécie de pacto com os dias.

...Foi na tarde daquele mesmo dia de agosto, que depois escureceu de repente, que a busquei entre as páginas de um livro que me deste de presente no início da primavera passada: “Vintém de cobre”, de Cora Coralina. Livro com valor de moeda de ouro. Poesia das mais diretas que tenho lido e amado. Poética simples daquela feiticeira dos versos enraizada lá no doce e distante Goiás Velho.
Remetido àquele nosso tempo, onde ensinava minhas lições primárias usando frases de efeito, salpiquei de lembranças férteis minha saudade. Era sabedoria alinhavada com amor. E eu a visualizava como a pessoa mais importante, que entretanto, não carecia de posses. Era assim rica apenas de coração.
Resistiu como uma verdadeira heroína às batalhas contra os preconceitos, onde as cicatrizes se arrastaram como testemunhas pelo tempo.
Tinha um pai poeta. Disso criava seu maior tesouro.
Naquela estrada de antes, minha mestra, me vejo criança ainda. Com memórias guardadas no bojo de um estojo. De desenhos e traços traduzindo reminiscências onde o caderno, o lápis e a borracha eram levados num daqueles saquinhos de arroz e mesmo assim se tinha certa vaidade por isso. A inocência nos escondia que o real e a fantasia se separavam no final. E como era suave o caminho....
Foi a senhora quem ensinou que o leste, onde nascia o sol, era simplesmente ali, atrás do Morro do Cruzeiro. Tão perto.
Passaram-se os tempos e o moinho dos anos moeu muitas coisas...
Aquele menino de antigamente que vivia corendo atrás de pipas e bola de capotão, subindo e descendo o muro do velho cemitério, não existia mais.
Já crescido, ainda era uma bênção pra mim quando lhe encontrava pelas calçadas eternas da Santa Rita. Era quando trocávamos lágrimas e começávamos uma viagem longa atravéz das estórias que quase foram parar no esquecimento. Literatura livre de um cotidiano tido como uma verdadeira epopéia. Monografias indispensáveis para quem se preocupa com a preservação da memória do lugar. Parecia que tudo tinha acontecido ontem, tamanha sua fidelidade com as minúcias. Buscávamos dentro dos olhos um do outro uma palavra nova que pudesse traduzir aquele instante. Assim brotavam sorrisos ternos e aquela forma metafórica de inquietação, aquela rebeldia explícita e a paixão vinda de dentro de uma poesia inventada na hora. Isso tudo aliado a desfechos surpeendentes de despedidas.
“Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece”, era o verso de Cora Coralina preferido e mutuamente importante pra nós dois quando se tinha certeza de que um novo dia chegaria. Um mapa desenhado com o propósito de se compreender melhor tudo que ainda estava por vir. E depois, quando a tarde chegasse, com seus tons e cores ajustados secretamente por Deus, ríamos e novamente lembrávamos do verso. Sua beleza se transformava em você. Algo transcendente.
Da úlitma vez em que estive em sua casa entreguei-lhe um bilhete, num pequeno contraste ante aquela realidade em volta. Era uma poesia que eu a vi ler como se olhasse num espelho:
“Vento amor que vem soprar
é brisa saudade que vai partir.
Pétala paixão que vai ventar
é ramalhete bilhete que vai florir”.
Foi no mesmo instante em que lhe pedi um prefácio.
“Eu não sei escrever”... dizia numa estranha ironia a mais esplêndida professora que tive.
Não hove tempo para escrever. Mas coube o orgulho em ver aquele menino miúdo, filho do retratista, eternizar estórias e versos nos jornais diversos daqui.
Perdidas agora num tempo, suas palavras pairam secretas n’outro plano...
Vi esta ausência revirar minha letargia ao avesso, transcendendo minha sensibilidade e mostrando que certas palavras não devem nunca ficar empoeirando na prateleira. Nem da memória, nem do tempo.
Admirável mulher. Livre diante do orgulho de sua raça. Cultivada em berço simples. Inserida pelo destino no meu importante caminho. Flor de chão.
Nos meus reservatórios poéticos um vago sentido opõe-se diante de sua luminosidade e me curvo. Assim, quero parar o tempo, voltar os dias. Ter uma outra chance para que suas palavras voltem a encantar todo o acaso. Para que o momento resgate sua essência e transporte para a dura realidade um instante sublime, onde se tem a certeza de que Deus sempre reconhece uma alma grandiosa.
Viajo poesias de aleluias festivas e sinos alegres. Me revolto em silêncio diante de sua falta. Mas rezo com fé ímpar para que minha “Ave Maria” lhe tranque definitivamente na imensidão deste céu, onde agora, com a iluminação que Deus lhe deu, possa emprestar a todos gotas de sua luminescência.

E sentir como foi triste lhe ver passando pela última vez em frente sua casa sem poder entrar.
E ver como foi belo um Ipê amarelo lá no final da Rua 1º de maio parecendo acenar.
E pensar que era tão perto o nosso leste professora que quase dava pra pegar o sol com a mão...

Descanse em paz minha mestra.

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