Entrega o jogo!


O clima e o “cheiro” do Natal já percorria as narinas mais sensíveis à época.
Tonho não podia comer carne de porco porque tinha gota. Só que naquele Natal ia fazer diferente: fazia tempo que não comia uma leitoa assada e nem se esbaldava mais bebendo vinho e cerveja. A culpa era da gota. Além do mais, estava apreensivo com o final do campeonato que poderia render ao coringão mais uma taça. Tinha esperança que tudo pudesse dar certo nos últimos jogos.
Tonho estava com palpite e decidiu então encomendar com Seu Jorge do açougue ¼ de leitoa para a ceia daquele natal que se aproximava.
Todo mundo sabia, inclusive a polícia, que a um quarteirão do açougue do Seu Jorge, num cortiço, Seu Arlindo, um palmeirense fanático e já meio caduco, fazia jogo de bicho. Era seu ganha pão pra compensar a defasada aposentadoria.
Tonho foi de carro então junto de seu filho encomendar a leitoa que já rondava o pensamento e enchia-lhe a boca de água.
Passando em frente ao cortiço do Seu Arlindo,Tonho parou o carro assim que se deparou com o bicheiro sentado no meio fio da calçada. Fazia tempo que ele não fazia uma “fezinha” no jogo de bicho e decidiu então contribuir para a manutenção daquela contravenção.
Dentro do carro, ligando toda sua vontade de comer uma leitoa a pururuca, ele rabiscou num pedaço de papel uma centena:169, porco. E deu mais 10 Reais para que o filho descesse e fosse lá fazer o jogo.
Criança todo mundo sabe como é, se distrai fácil. E olhando um “laça-laça” de pipas no céu, o menino se esqueceu por um instante do seu dever. De longe, Tonho gritou com o moleque tentando o apressar:
-Ei, entrega o jogo! Entrega o jogo!
Seu Arlindo, escutando aquele pedido do Tonho respondeu como se fosse com ele e gritou:
-Eu também prefiro que o “parmêra” perca a ver aquele timéco do “curíntia” campeão...
No final, todo mundo sabe o que aconteceu.
Tonho ficou alguns dias sem poder andar devido a gota que piorou.
Mas se alegrou depois quando ficou sabendo que deu “porco” na cabeça...