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Mambembe

Havia um plano.
Tínhamos ensaiado cenas, um repertório.
Conforme os dias iam passando, éramos contaminados pela criatividade: havia dança, música, poesia. Lembrava o cinema. Entrelaçavam emoções e memórias.
As pessoas iam e vinham curiosas. Houve gente sentada lá no canto da praça espiando desconfiada.
As figuras típicas da praça também estavam lá: o cachorro, o bêbado, o pipoqueiro. Uma atmosfera diferente estava sendo incorporada...
Mas afinal, qual seria a história a ser interpretada? A de um homem maltrapilho e sujo encantado num cenário ambulante cheio de cacarecos dependurados.
Era um texto enxuto que não só flertava como namorava o politicamente incorreto. Mas o tema principal da trama era o risco dirigido pela coragem. Principalmente os riscos impensados que emergem por causa do sopro artístico.
Do lado de dentro, mais do que levar arte, a busca era encontrar novos adeptos da revolta. Disseminar possíveis encantamentos pela causa. De escutas, de pensamentos, de sentidos e, porque não, de outras formas e planos para acabar com a repressão subjetiva do cotidiano.
Estávamos ligados.
As idéias circulavam com rapidez. Isso dava a noção de como estávamos também imbuídos no plano. Tudo estava controlado. As conexões foram além do espaço físico da praça. Toda forma era um rosto que nos olhava.
Uma certa correria fez o palco se deslocar. Houve quem ajudasse a recolher as coisas pelo chão. O violão teve cordas arrebentadas.
Quem não pode vir junto da gente ficou no meio da rua obstruindo a passagem do carro militar e sua sirene estridente.
Eles não nos alcançaram.
No silêncio dentro da nossa Kombi ainda conseguimos ver em cada olhar, no semblante um do outro, que a gente ainda tinha um plano...

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