Retratos de nós mesmos.


Por Célio Luis Batista Leite (Celinho)

O cinema italiano está para o mundo da sétima arte assim com o futebol brasileiro está para o mundo da bola. Giuseppe Tornatore não chega a ser um Pelé, mas pode ser considerado um Garrincha. No filme “O Homem das Estrelas” (1995), este fantástico diretor conta a história de um charlatão que percorre a Sicília, nos anos 40, filmando e retratando pessoas para se tornarem estrelas de cinema, cobrando 1.500 liras por isso.
Impressionante ver como rostos simples se transformam diante de câmeras: verdadeiras estrelas daquele momento.
Quando assisti ao filme pela primeira vez, foi impossível não me lembrar das cenas que eu via, quando criança, na Praça Nossa Senhora Aparecida. Os “retratistas”, postados em frente à Matriz Basílica, com suas “caixas mágicas”, registrando nas chapas o rosto dos romeiros que vinham rezar aos pés de Nossa Senhora. As fotografias, muitas vezes, retratavam gerações. Eram vários componentes de uma mesma família que, às vezes, não cabia na foto. Da minha família mesmo, há várias versões destes momentos nostálgicos.
Gostaria de convidar o leitor deste texto a refletir o quanto de memória existe nestes registros. Não dá nem para imaginar quantas chapas foram batidas ao longo de anos ali naquela praça. Experimente imaginar!
Se estas fotografias resgatam a história da vida privada de milhões de pessoas, imagina o quanto de memória e história estão guardados na mente dos retratistas.
Tenho a felicidade de ser amigo de Lúcio Mauro Dias, filho do Sr. Joaquim Dias, que foi um destes profissionais que um dia clicaram um momento para eternizá-lo.
Lúcio Mauro, em seu livro “Os Guardiões da Santa: Histórias dos Retratistas Lambe-Lambe de Aparecida”, sugere que façamos esta viagem ao universo destes profissionais: as origens, a linguagem própria, os dramas, as formas de organização, a luta pelo ganha-pão, os apelidos cômicos, os desafios diante do moderno. Tudo isso registrado pelas letras deste grande escritor.
Assim, parece que estamos diante de uma câmera, registrando quadro a quadro a história de Aparecida. Recheado de fotografias, o livro nos convida à lembrança de como a cidade se transformou. A opinião se “para bem” ou “para mal” fica por conta de cada um.
Nas páginas deste belo livro, o autor nos deixa um legado: de que é importante resgatar sempre a memória e a história de um local, mesmo que seja pela simples lente deste singelo profissional, que parece resistir aos tempos da máquina digital e ao Instagram.

Obrigado por este presente Lúcio!


Célio Luis Batista Leite é Sociólogo (USP) e Secretário de Turismo da cidade de Guaratinguetá/SP