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Anjos




-Estou farto disso, basta!
Assim esbravejou o rei Herodes esmurrando a mesa onde estava, rodeado pelos seus guardas.
A razão daquela revolta real era simples: nenhum deles havia conseguido encontrar o messias que iria nascer naquela noite.
Todos os meninos nascido naquela semana, Herodes sabia, não era o falado “salvador”. Pelo menos aqueles que os guardas puderam tirar a vida até o momento.
E nessa raiva, decidiu ele mesmo dar uma última busca pela redondeza. Haveria de encontrar e sacrificar a qualquer custo aquele menino denominado “o rei dos reis” a quem entendia ser uma ameaça ao seu reinado.
Andou vasculhando cada casa de cada lugarejo. Em vão.
Antes de voltar, o rei acabou entrando numa taverna que ficava ao lado de um prostíbulo na cidade de Belém a fim de saciar sua fome e sede.
Foi no mesmo instante em que esbarrou num homem de fisionomia cansada, como se parecesse ter andado por léguas.
Por parte do rei viu-se um olhar áspero. Por parte do outro homem o que se viu foi um semblante intacto, parecendo faminto.
-Meu senhor, por Deus, tive andando uma distância considerável até aqui. Trago comigo uma esposa que espera um filho prestes a nascer. Estamos com fome. Por complacência, seria possível saciar-nos a fome com um pedaço de pão?
O rei Herodes nunca conheceu a palavra “complacência”, mas encheu-se de surpresa achando que enfim tinha encontrado o pai do messias prestes a nascer:
-Diga-me, pois o seu nome homem...
-José senhor, me chamo José...
-Venha José, sente-se comigo em minha mesa. Conte-me onde está sua esposa.
-Num lugar seguro meu senhor. Tive um sonho por esses dias onde um anjo disse-me “Toma sua esposa homem de Nazaré e fuja”. E foi o que eu fiz...
-Traga-me mais pão e mais vinho, ordenou Herodes ao dono da taverna. E continuou a conversar com José a fim de ludibriá-lo e encontrar o menino que nasceria não mais tardar naquela noite.
Após a conversa, José enrolou alguns pães em sua veste e ouviu Herodes falar:
-Vá meu bom homem, leve estes pães à sua esposa e volte aqui que eu tenho um presente muito valioso para lhe dar...
Mal sabia José que Herodes tinha por intenção segui-lo.
E José foi levar o tão valioso alimento à Maria...
Herodes levantou-se apressadamente. Mas antes de sair, foi abordado pelo dono da taverna:
-Meu senhor, não dê ouvido a este louco. Há dois dias ele perambula por essa região dizendo-se carpinteiro. Diz que traz consigo uma esposa grávida e que conversa com anjos. Blasfema descaradamente. Só não o coloquei fora daqui porque o senhor lhe confiou conversa. O que eu pude saber dele é que traz somente um burro consigo. Não vi esposa nenhuma com ele...
As palavras daquele homem puseram Herodes a pensar. Tempo suficiente pra José sumir na escuridão do lugarejo.
-Posso lhe servir outra taça de vinho meu senhor?
-Sim. Traga-me seu melhor vinho. Vou esperar por ele aqui. Tenho certeza de que ele vai voltar trazido pela curiosidade do presente valioso que lhe prometi...
Estava escrito que José não voltaria, pois seu filho nasceria naquela noite.
E Herodes embebedou-se na longa espera que acabou ficando ainda mais raivoso. Não conseguiu ao menos montar em seu cavalo e procurar José.
Mas José era um homem correto. Ao clarear o dia, foi até a taverna justificar o porquê não havia voltado e dar uma satisfação ao homem suntuoso que matara a fome dele e de sua esposa:
-Senhor, sabe o paradeiro daquele homem que me pagou alguns pães ontem à noite?
A resposta do dono da taverna foi explosiva:
-Vocês dois são loucos! Primeiro me chega você dizendo que conversa com anjos só pra ganhar um pedaço de pão. Depois vem outro dizendo ser rei não sei de onde. Esse infeliz ao menos consumiu o meu vinho mais caro. Acham que sou tolo? Você por favor, não entre mais aqui para importunar meus fregueses...
De cabeça baixa José ainda teve a nítida impressão de conhecer o dono taverna de algum lugar. O semblante não lhe pareceu estranho.Um anjo, por vezes, toma mil formas. Como aquele que servia vinho na taverna e que também carregava a chave do prostíbulo onde o rei Herodes estava desmaiado, exalando a vinho, depois de passar a noite com uma prostituta dali...

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