Salvação


Num resgate histórico, desses que assombra o mais cético dos mortais, ela conseguiu driblar a importância dos meus valores e me recolheu.
Recolheu-me mesmo quase aos pedaços, pois a boemia me reduzia ao lastro de um nada sem cor e sem brilho que eu não percebia.
Vi meus projetos começarem a ruir. Percebi que os dela eram mais contagiantes. Os meus, giravam em torno de sonhos boêmios. Os dela tangiam de realidade as possibilidades concretas de serem.
Logo meu terno branco e meu chapéu Panamá ficaram expostos ao esquecimento. Ela me cobriu de importâncias e me deu uma certa luz. Tirou o mofo do lugar, abriu as janelas, fez o vento circular feito revolução. Aguçava meu raciocínio e cantava pra mim arranhando com extrema leveza seu violão. Foi aí que revi minhas tendências que já estavam enraizadas e estabelecidas.
Na surdez que beirava o silêncio, fez de meu gosto algo eclético e desde então não manipulei mais minhas preferências. Ela sempre dizia que assim era mais fácil não trair as escolhas. Deus como foi incrível abdicar daquela minha vida...
Digamos que eu já era um encantado quando ela me fez descobrir o amor. Amor de verdade, estratosférico. Amor de olhar nos olhos e de deixar bilhetes pelos cantos.
Dentre os nossos projetos mais ousados, um era abrir um boteco. Mas não um boteco comum que só aprisiona homens vazios. Mas um lugar de aprazível estadia que prendesse voluntariamente e não aprisionasse. Ela colocaria em prática a concepção de seus quitutes enquanto eu, com os ouvidos mais apurados, engenharia o som numa espécie de encantamento para todos os gostos.
Na ponta do lápis, esta empreita seria inviável. Mas ela tinha o dom de inventar novas conquistas e novos empreendimentos que me colocava extasiado.
Nós dois mal podíamos esperar pelo jardim em flor que cultivamos juntos sob muitos sóis. Um jardim que mais parecia uma réplica dessa mulher que me escolheu e me encontrou perdido numa brusca tempestade. Tudo que pensávamos, inclusive músicas feitas, ela com os acordes, eu com as letras, guardávamos num baú de secreto convívio. Um dia tudo ia explodir em essência e alegrar o mundo.
Idas e vindas a um médico, juntamente com exames relacionados, trouxeram um diagnóstico improvável para alguém cheia de vida. Por alguns dias passamos a não acreditar mais nos sonhos. Mas um dom supremo invadia sua alma todo santo dia e ela parecia não ligar para aquela doença traçada pelo destino.
Pouco tempo depois, seu semblante sofrido, mas que nunca deixou de esboçar um sorriso, foi escolhido pelo eterno numa manhã ensolarada.
Revirando nosso baú de coisas esquecidas, tirei a poeira de um tempo e relembrei velhos projetos. Achei que, numa guinada, ainda tivesse forças para por em prática ao menos alguns deles. Tudo me favorecia: tempo, dinheiro e o meu comprometimento em seus últimos instantes. Era só recomeçar a sonhar.
Nada fiz porque, a pitada de encanto mais importante me faltava.
Num saudoso pranto vi que, sem ela nenhum projeto mais faria sentido.
E me entreguei à boemia que me corroeu tempos antes na esperança de um dia revê-la e ela então salvar novamente o meu mundo.

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