A música acalentando a dor.


Rege a lenda de que em Aparecida só fica sem alguns trocados no bolso quem quer.
Foi pensando nisso que acabei por observar com mais atenção meus inúmeros CDs de músicas empoeirando na estante e acumulando um tempo imprevisto sem serem sequer tocados. A tecnologia de hoje permite que o computador, interligado ao aparelho de som, reproduza fielmente a mídia digital das músicas agrupadas em pastas de formato MP3. Logo, a grande ideia: passar todos os já considerados obsoletos CDs para a memória do micro para depois, a um preço simbólico, tentar faturar alguns trocados.
E lá se foram alguns dias até todos estarem devidamente copiados. O alvo agora era a Barbearia do Niquinho, ali na Santa Rita. É lá que todo mundo passa e pára um pouco pra discutir o futebol, a política escassa de esperança ou até mesmo somente para escutar um som regido pelo bom gosto do Niquinho.
Desci a rua então às duas da tarde sob um sol forte com meus velhos CDs de estilos variados e ecléticos. Depois de três horas e meia, o rendimento do dia foi de R$ 95, 00.
Agradeci ao dono da barbearia presenteando-o com um CD e segui de volta ao meu território para elaborar junto da patroa uma lista das maiores necessidades da dispensa.
Nisso, sou abordado por um rapaz que de longe me perguntou convicto:
-Amigo, tem algum CD do Chico Buarque aí ?
Por sorte, em meio ao restante dos discos, lá estavam dois CDs “dele”, eternizado em canções épicas.
-Quanto valem os dois CDs amigo? Vou levar os dois...
Coisas que não têm preço eram aqueles dois CDs.
Com mais R$ 10,00 daquela venda, embarcamos rumo ao Supermercado Leão fazer nossa comprinha.
Lá, empurrando o carrinho, fiquei admirando com olhos de pedinte uma pilha de cervejas em lata bem no final de um corredor. Fiquei sonhando acordado com uma delas bem gelada em minhas mãos sucumbindo em poucos minutos e em tão poucos goles.
A voz da patroa chamando me fez acordar daquele sonho.
Mas...“trocando em miúdos, como berber desta bebida amarga?”
Naquele dia, o arroz e o feijão faziam muito mais falta na dispensa.
Foi quando a música então acabou por acalentar a dor da barriga vazia.

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