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O caos do país tropical

Se acaso o grande Nelson Rodrigues ainda existisse, talvez trocasse de seus textos o estereótipo do “complexo de vira-latas” do brasileiro pelo “somos todos macacos”. Armando Nogueira falaria que somos mesmo um “bando de bananas”. E pra variar, o preço da banana aumentou na quitanda do japonês.
Como disse um treinador de um time da capital paulista, se o brasileiro cobrasse com a mesma veemência os politiqueiros da mesma forma que cobram um jogador do seu time, o país seria outro. Pra atirar um vaso sanitário nos contrários á sua paixão, o cidadão tem que ter mesmo merda na cabeça.
Mas não se assombre. Também sou brasileiro. Minha cor vai ser amarela. Mesmo porque, ver um país com cotas raciais criticar o racismo soa estranho. Alma não tem cor.
Porque a copa é preciso? A copa é necessária para que a seleção do Felipão a vença. Assim, a energia sobe e a gente nem percebe. Faltará a saúde, hospitais de padrão FIFA, moradia, educação e a gente não vai nem se dar conta. Dirão que a culpa pela falta d’água é nossa, pelo nosso uso desordenado. Assumiremos essa falta de consciência com naturalidade. E que ninguém nos ouça: vai ter muita gente na fila dos hospitais esperando pelo médico que vai estar na sua sala acarpetada vendo a partida pela enorme televisão de LCD. E num caso e outro de dengue, alguém ainda vai estar feliz mesmo jogado no corredor da emergência quando o gol sair e a taça ganhar os céus pelas mãos do nosso capitão. Estaremos extasiados pela Dolantina da seringa e por outra estrela no peito. “Que tempo maravilhoso de se viver”, dirão.
Amarildos sumirão. Balas perdidas continuarão encontrando um inocente qualquer que não sabe de nada. O bonde passeará sobre nossas cabeças sem pressa. Vamos deixar tudo pra lá. Amanhã é outro dia.
A conquista da copa é a maior aposta brasileira dos últimos 64 anos, batendo até mesmo a aposta sobre a petrolífera americana de Pasadina. E ela terá início seis dias após o quinto dia útil de junho. Poderão então sobrar algumas míseras moedas pra festa arrependida do dia seguinte. Estaremos esgotados a cada churrascada na laje, a cada extração de um gol.
O patrão, elitista por excelência, continuará seu descanso enquanto rodamos essa engrenagem enferrujada do progresso. O Bolsa Família continuará alimentando os famintos por justiça. CPis cheirarão a queijo e a orégano. E mais quatro anos o Laquê da presidente vai contrastar com o descabelo da revolta.
Mas não se abalem. Vai ser o paraíso! Sem essa de campeão moral. Vamos dar o velho jeitinho brasileiro e apagar de vez o trauma de 1950. E vão de carona 1982, 86 e 90. Não se apressem porque a Rede Globo vai controlar os horários dos jogos. Não tem como perder uma partida.
Aqui quem manda somos nós. Os estrangeiros mandam somente nas estatais ora bolas.
O arroz vai queimar na panela enquanto a dona de casa de hoje vai estar na rede social curtindo e compartilhando uma piada feita da cara dela mesma. Não vamos nem nos dar conta do caos que já é um velho conhecido.
Aí, passado a euforia, vamos achar normal o leite faltar, o pão embolorar e o feijão azedar. Nada consta. Somos os melhores. Hexacampeões da paciência. E vamos todos teclar na urna (como isso soa mórbido... é o luto da vivência social) a mesma dezena do azar de sempre. O estádio de primeiro mundo já foi empurrado goela abaixo. Sem dó nem piedade. Amparado pela paixão futebolística.
E iremos outra vez pedir no templo da nossa harmonia particular que Deus continue sendo nosso conterrâneo. O mesmo Deus velho e contemporâneo que nos salva e nos salvará.
Que tudo continue como sempre. Que continuemos (meu Deus) presos na mesma insignificância popular de sempre até que o estampido de um novo tiro nos desperte. Até lá, minha memória fraca me salvará.
Contemplaremos a vitória e a derrota que parecerão uma só coisa.
O gigante adormecido despertou! Ele está colando figurinhas da copa no seu álbum... 

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