Fidelidade revelada

Contam que o poeta Manuel Bandeira certa vez esteve em Aparecida. Chegou de trem na estação, vindo de São Paulo onde participou de um encontro literário.
Bem de frente ao Colegião, deu sinal para o bonde parar. Queria subir até a praça da basílica velha. Havia escutado falar sobre uma técnica que os retratistas desenvolveram em revelar uma fotografia que pudesse juntar duas pessoas no mesmo postal, mesmo se uma delas estivesse ali ou não. Viva ou desencarnada. Era uma técnica inventada pelos mais notórios fotógrafos da época. Um serviço trabalhoso, mas de resultado surpreendente.
No bolso do paletó Manuel Bandeira levava a fotografia de uma mulher. Dizem que ela foi responsável por inspirar o poeta Bandeira por décadas sem saber do sentimento dele. Via-o mesmo como um grande amigo. Era um retrato tirado em frente à matriz de Aparecida que tinha gravado no rodapé as palavras “Photo J. Abbade”. E foi então o poeta procurar pelo tal na Praça d’Aparecida do Norte...
O bonde subiu mansamente a Rua Nova e ganhou a praça. O ponto final ficava em frente a farmácia do seu Américo Alves. Ali Bandeira desceu, comprou um elixir pro estômago (havia comido algo na última parada do trem que não lhe caiu muito bem), trocou dois dedos de prosa com seu Américo e, sem ser reconhecido pelo farmacêutico, foi em busca do tal retratista “J. Abbade”.
Andou vagarosamente pelo largo e se aproximou de um retratista que estava “enfiado” dentro de uma máquina:
-Bom dia meu senhor. Procuro por um retratista chamado J. Abbade. Sabe quem é?
-Bom dia. Olha meu senhor, o Joãozinho Abbade anda meio adoentado. A idade pesou pra ele e já faz alguns dias que ele não sobe mais a praça...
-Ah... então nome dele é João Abbade?
-Isso mesmo, senhor João Abbade. Ele é um dos mais antigos por aqui...
 -Mas meu bom homem, talvez o senhor possa me ajudar. Ouvi falar de uma técnica empregada por vocês fotógrafos que me parece que conseguem unir duas pessoas no mesmo retrato, mesmo se esta pessoa já estiver saído desta pra uma melhor. Você consegue fazer esse trabalho?
-Olha, eu não consigo fazer isso. Mas vou te apresentar um retratista que pode lhe ajudar, me acompanhe...
Algumas passadas pelo lugar e encontram o retratista Raphaelzinho Menezes, que estava dando um trato no seu maquinário, já que era um dia de pouco movimento na praça.
O diálogo entre os dois foi mágico:
-Bom dia meu senhor, me chamo Manuel Bandeira. Qual vossa graça por gentileza?
-Bom dia. Sou Raphael Menezes, seu criado. Em que posso ser útil?
O poeta Bandeira explicou então ao Raphaelzinho todo o imbróglio.
Logo, Bandeira já estava em frente à matriz. Estático para pose.
Uma ajeitada na gravata, braço esticado como se abraçasse alguém. Tudo nos conformes.
O disparo da objetiva tipo Menisco foi rápido: “Clic”.
-Agora, enquanto o senhor toma um café, vou revelar seu postal ...
Foram necessários uns 30 minutos, tempo necessário para o poeta Bandeira tomar outra dose do seu elixir. Um café não cairia bem naquele momento.
Logo veio o Raphael Menezes trazendo a fotografia onde a imagem revelava o reencontro entre Bandeira e sua amada. A chapa em negativo era sobreposta sobre a fotografia levada pelo poeta. Dentro da máquina, o retratista fazia uma nova foto (sabe-se lá como) e as duas pessoas apareciam juntas. Algo mágico que deixou Manuel Bandeira cheio de encantamento com o resultado.
“Eu demorei um pouco porque estive procurando um papel especifico pra revelar o retrato”, disse Raphaelzinho. Ele também perdeu um bom tempo procurando o gabarito para gravar o nome J. Abbade” no retrato. Todo seu maquinário ficava guardado no foto do retratista Isaac Encarnação.
Depois de Bandeira contar que a mulher da fotografia havia falecido há mais ou menos 15 dias, o poeta ainda perguntou ao retratista:
-Mas me diga, porque você gravou o nome do João Abbade e não o seu na fotografia meu caro?
-Devo muito ao Joãozinho sabe. Ele está passando um momento ruim. Além de fazer o nome perdurar, levarei os merréis deste serviço pra ele hoje...
Aquela fidelidade tocou profundamente o poeta.
Já no vagão do trem de prata, Manuel Bandeira olhava a fotografia com ternura. Era uma mistura de sentimentos e saudades.
Sacou sua caneta do bolso e escreveu atrás do postal os versos do amigo Drummond:
“É apenas uma fotografia, mas como dói”...
O retratista João Abbade acabou falecendo naquela mesma semana. E mais uma fotografia perdida no tempo levou seu nome, ajudando a tecer uma parcela da posteridade que ele merecia...